A IA entrou no palanque digital

Vídeo falso ou descontextualizado mobilizou a disputa nas redes mais do que as críticas por vandalismo, segundo levantamento.


A Marcha pela Democracia, realizada pela campanha de reeleição do presidente Lula, em 11 de outubro na Avenida Paulista, produziu um fenômeno que vai além da disputa entre apoiadores e críticos do governo: a checagem de um vídeo atribuído indevidamente à manifestação ganhou espaço central na conversa digital.


Levantamento da pesquisadora Lilian Carvalho, professora de Marketing Digital da FGV-EAESP, identificou cerca de 206 mil menções favoráveis à manifestação e 193 mil menções críticas, entre os dias 11 e 13 de outubro. As publicações partiram de aproximadamente 90 mil e 91 mil autores únicos, respectivamente.


O dado mais curioso está no conteúdo das críticas. Segundo a pesquisadora, parte expressiva da discussão negativa não se concentrou nos registros de vandalismo, mas na contestação de imagens que associavam à marcha episódios sem relação comprovada com o evento.


O vídeo que mudou a conversa


Um dos conteúdos que mais repercutiram mostrava uma mulher consumindo uma substância apresentada como cocaína. O vídeo, gravado no Chile, circulou nas redes como se tivesse sido registrado durante a manifestação na Paulista.


A publicação provocou uma reação que revela uma mudança no comportamento dos usuários: em vez de recorrer exclusivamente a veículos de comunicação ou a serviços tradicionais de checagem, muitos passaram a marcar o Grok, a inteligência artificial integrada ao X, para perguntar se o conteúdo era verdadeiro.


Segundo o levantamento, o sistema publicou 407 respostas em três dias no recorte de discussões críticas analisado.


A observação da pesquisadora é que a verificação de informações começa a acontecer dentro da própria plataforma, no mesmo espaço em que o conteúdo viraliza.


Isso muda a dinâmica da disputa política. Uma imagem pode ser compartilhada milhares de vezes, provocar indignação e alimentar críticas antes que sua origem seja esclarecida. Quando a checagem chega, ela passa a disputar atenção com a publicação original.


Mas a resposta de uma inteligência artificial não substitui, por si só, a verificação jornalística. A ferramenta pode ajudar a levantar dúvidas e identificar inconsistências, mas suas conclusões precisam ser avaliadas à luz de evidências verificáveis.


O episódio também expõe uma transformação na comunicação política. A disputa não acontece apenas entre discursos de candidatos, partidos e movimentos. Acontece também em torno de vídeos, fotografias, memes e conteúdos cuja autenticidade pode ser questionada em tempo real.


Na avaliação de Lilian Carvalho, o Grok assumiu um volume expressivo de respostas sobre o tema, alcançando uma presença comparável à de um importante intermediário informativo, mas sem a mesma estrutura de responsabilidade editorial de um veículo jornalístico.


A observação levanta uma questão que tende a ganhar importância nas próximas disputas eleitorais: quem verifica o conteúdo que circula nas redes e como o público avalia a confiabilidade dessa verificação?






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