Águas da infância

Foto ilustrativa do povoado Lagoa do Mato
Águas da infância

A casa no “pé do morro”, frente para o nascente, habitação simples como muitas no interior do Brasil, Nordeste e no meu berço de nascimento, o Maranhão, terra de poetas: Gonçalves Dias, Coelho Neto, Salgado Maranhão e muitos outros.

O vasto terreiro, o laranjal, os poços, o velho e o novo para humanos e bichos; na estação chuvosa, a vertente os faz transbordar; na seca ouve-se o som do carretel, águas em tanque para animais.

A cem brasas à frente corre um riacho, com trechos e nomes específicos: Poço dos Ribeiros, Cacimbão, O Volta e Passagem. Das ribanceiras, nas cheias, cenas memoráveis: meninos nus a saltar na água e a divertir-se, em pegas de “kibas”, expressão para jacarés, e muitos a jogar canapés livremente.

O riacho segue sem saber o destino, como são o de muitos ali, mas a natureza tem uma lógica: o riacho da frente de minha casa alcançará o riacho Baunilha, no povoado Olho d’Água Grande, e doravante será o Trapiá, que une-se a outro vindo do povoado Centro Açude; juntos vão desaguar no Parnaíba, bacia genuinamente nordestina que nutre as terras em que nasci e me fizeram filho, vez que sou filho das terras nutridas pelas águas do Parnaíba.

A vida flui, deixei o povoado Lagoa do Mato, meu berço telúrico, e finco morada em Coelho Neto. São quatro anos de construção e conhecimento de águas da bacia do Parnaíba, o riacho Araim, que une ao rio e segue rumo ao mar. Ah, quantas saudades dos banhos, dos encontros e da visão que contemplava, na margem oposta, os vazanteiros plantar e esperar a colheita, Quantas travessura realizamos em busca de melancias. 

Águas da minha infância hoje correm em saudades: leitos soterrados, matas destruídas, vidas ausentes; o nosso sofrer o peito sente, e olhos transbordando fazem rolar as águas pela face que testemunha os efeitos do tempo. 

Benjamim Pessoa Vale, 05/12/2025





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