Medicina à respiradores
A caminhada de 34 anos no exercício da medicina, tentando cumprir o juramento feito no ato da formatura, “juro que consagrei minha vida a serviço da humanidade…”, imbuído de compaixão, conhecimentos científicos, ética e integridade moral, tão necessários à condução diária das ações frente aos nossos pacientes, medicina é sacerdócio, e fazemos, quando deixamos bens com tempo e talento como pertencimento da sociedade, nossas famílias entendem nossa ausência em muitas datas festivas, onde cumprimos jornadas em hospitais, vão-se natais, anos novos, dia das mães e aniversários, nossa ausência é justificada pelos cuidados a amor de alguém, isso é compromisso com a vida e compromisso de ser médico.
O conhecimento científico, ética e humanismo são chamas que nos guiam na escuridão, quando frente aos quadros em que a indesejável é vencedora, somos humanos, resta-nos o conforto.
Hoje a medicina avança a passos largos, novas tecnologias, novos conhecimentos, a genética nos auxiliando nos diagnósticos e tratamentos, o que torna a prática médica onerosa, estrutura hospitalar, órteses, próteses e medicamentos de última geração, são gargalos vencidos por pequena parcela da população, os profissionais que são os componentes visíveis da cadeia, as remunerações são baixas frente aos custos totais.
Nos últimos anos temos visto alastrar-se os cursos de medicina, com formações sofríveis, escolas sem hospitais para treinamentos dos alunos, muitos sem o compromisso do ensino médico com princípios que regem o bom exercício da profissão, já observamos a quantidade e a qualidade em equações diferentes, a conta será paga pela população, todos somos navegantes da mesma “nau”.
Dados objetivos já nos mostram que, se não agir como classe, o despencar no desfiladeiro já iniciado é inevitável, caminhamos para o suicídio coletivo da mais sublime das profissões, já agonizamos e sobrevivemos a ventiladores.
Precisamos agir como classe, somos médicos, agentes sociais, políticos e humanos, nossa missão é cuidar de vidas, quando a esta se sobrepõem outras, ficamos vulneráveis como classe e defender os princípios éticos e humanos na medicina torna-se uma luta canibalesca interna e a corrosão aos pilares fundamentais acaba por destruí-los.
O mercado regula, mas a consciência da classe e da sociedade tarda, pagaremos um preço muito alto, quantos somos? Quantos lutam? Quantos enxergam os pacientes como amor de alguém? São pontos para reflexão.
Admiro os que desejam ser médicos, mas sempre verbalizo, que formar-se em medicina é a etapa mais fácil do ser médico, cuidar de vidas, sempre exigirá compaixão, humanismo, conhecimento científico, ética e integridade.
O ser médico é exercer a medicina com princípios, com discursos e práticas na mesma equação, vamos ajustar as variáveis dos ventiladores, cada um olhando para o seu e não o de outrem, buscar uma luta construtiva pela medicina com forças e vozes uníssonas, assim sairemos da asfixia que já se instala.
A vida segue, a luta é árdua, renhida e continua e, se consegui construir algo, foi “pela inteligência e firmeza de caráter”.
Benjamim Pessoa Vale, fev/2026
Médico, doutor honoris causa – UFPI, Empreendedor Social





