Censo traz à tona a realidade dos indígenas do Piauí

O líder Tabajara tem a expectativa de que a vida de seu povo melhore a partir das informações que o Censo Demográfico trará.


Censo traz à tona a realidade dos indígenas do Piauí Reprodução

Uma casinha pequena e simples, de um bairro popular do município de Piripiri (PI), guarda riquezas em história oral e tradição. É nela que vive a liderança indígena mais velha do Piauí, o cacique José Guilherme, da etnia Tabajara. A realidade em que ele vive foge às expectativas do imaginário popular, mas também será retratada pelo Censo Demográfico 2022.

Ao entrar no portão que dá acesso direto ao quintal da residência do cacique, é possível conhecer o espaço onde os indígenas locais costumam se reunir. É um anexo à casa do líder, erguido com tijolos de barro, sustentado por colunas de madeira e com chão de terra batida. É lá que o cacique recebe o recenseador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Cícero Dias, que também é indígena Tabajara.

Qualquer pessoa pode se declarar indígena no Censo. Independentemente se vive em contexto urbano ou rural, se convive com outros indígenas em territórios contíguos ou não. A autodeclaração será respeitada pelo recenseador do IBGE e a pessoa poderá informar ainda até duas etnias e três línguas.

No Censo 2010, quase 3 mil pessoas se declararam indígenas no Piauí, o que representa apenas 0,09% da população total do estado na época. A proporção foi a segunda menor do país, superando somente o Rio Grande do Norte, onde 0,08% dos habitantes se identificaram como indígenas. No Brasil, quase 818 mil pessoas se declararam indígenas, o que equivalia a 0,43% da população.

Os resultados do Censo 2010 também mostram que cerca de 80% dos indígenas do Piauí viviam em território urbano. O dado contrasta com o resto do país, onde 61,5% desses povos residiam em áreas rurais. Uma das justificativas para isso é o fato de que, no Nordeste, comumente os indígenas eram capturados e colocados para trabalhar nas cidades, como ocorreu com o próprio cacique José Guilherme.


A saga para o reconhecimento da própria identidade


Até os 8 anos de idade, o cacique José Guilherme viveu com a família na região da Serra da Ibiapaba, no Ceará. “Fomos acuados com cachorro”, lembra. Os caçadores conseguiram embebedar e capturar os indígenas, levando-os, presos em jaulas, para o município de Viçosa (CE). Com o passar do tempo, eles foram “amansando”, conforme as palavras do próprio cacique, e conseguiram a liberdade.

Então, numa feira de Viçosa, encontraram comboieiros que os trouxeram ao litoral do Piauí com promessa de trabalho e dinheiro. “Nós viemos no meio das cargas de rapadura, cachaça, fumo e frutas. Quando chegamos ao Piauí, nos colocaram em uma fazenda”, relata. E foi lá que ele conheceu o grande amor de sua vida, a esposa Maria dos Anjos, que é filha do fazendeiro.

O irmão mais velho do cacique, Antônio Guilherme, foi o primeiro a sair do litoral e se estabelecer em Piripiri. José Guilherme, já casado, mudou-se pouco depois. Ambos conseguiram emprego de carregador e, por muitos anos, trabalharam com um grande comerciante do município.

E foi o filho desse comerciante, o antropólogo Hélder Ferreira, quem instigou José Guilherme a resgatar suas origens. “Desde menino, ele viva nos armazéns. Ele cresceu e foi estudar fora. Daí um dia ele chegou aqui, depois de formado, e perguntou se eu queria melhorar minha situação”, relata o cacique. Hélder Ferreira é, atualmente, pós-doutor e professor efetivo da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

“Começamos em cinco pessoas e hoje temos 246 famílias”, conta. Aos poucos, os indígenas da região foram se reconhecendo como tal, a partir da análise da genealogia. “Muitos perderam a linguagem por que chegaram nas cidades e pegaram a correria dos ‘brancos’, e aí foram perdendo a cultura”, lamenta o cacique.

A partir da articulação da Associação Itacoatiara de Remanescentes Indígenas de Piripiri, organizada pelo cacique e fomentada pelo antropólogo, os indígenas da região conseguiram reconhecimento. A conquista mais recente foi o recebimento do título de propriedade de um território próprio entregue pelo Governo Estadual.

Apesar dos avanços, eles ainda relatam sofrer discriminação. “Os ‘brancos’ fazem mangação (sic) da gente. Dizem que índio vive é na mata, não é na cidade não. Mas nós já fomos civilizados por vocês, aí não podemos ir todos para a mata, só pode quem é novo e ainda tem condição de trabalhar”, justifica o cacique, mostrando um problema na perna causado pelos longos anos carregando cargas.

O líder Tabajara tem a expectativa de que a vida de seu povo melhore a partir das informações que o Censo Demográfico trará. Ele considera que os dados são fundamentais para o fortalecimento do grupo. “Com isso eu espero que dê certo a união que nós queremos, para mostrar a grande força do nosso povo”, ressalta.



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