Avião de papel
Junho de 2026, inserido na vida moderna, os olhos a mirar a tela do computador e a mente a reconstruir a trajetória. Já se vão 34 anos da formatura em Medicina na Universidade Federal do Piauí.
Sentado à mesa, entre atendimentos, observo à frente o branco da parede; à esquerda, o quadro que, em arte, traz a intersecção entre o homem e o sertão; à direita, a poesia que se materializou no quadro referido. Sigo o atender, sem observar lá fora o movimento frenético das ruas. Aqui, o entra e sai de pacientes em busca do nosso bem maior: a saúde.
Por momentos em silêncio, recriei os corredores da UFPI, imagens dos colegas, lutas travadas e conhecimentos adquiridos. Fomos forjados a mudanças. Peguei sobre a mesa uma folha de papel que, dobrada e alisada, ganhou formas.
A infância aflora: dobra para lá, dobra para cá. Duas asas simétricas e um bico pontiagudo; tenho à mão. Ergo-me e, em passos à frente, alcanço o corredor, abro a porta e lancei ao espaço à frente.
Assisti à celulose, em dobras, transformar-se em um planador de sonhos. Desafiando a corrente de ar e a gravidade, fez uma parábola e suavemente pousou no solo, entre mandacarus, ipês e baobá.
O silencioso e desajeitado voo me fez refletir: às vezes necessitamos abandonar a complexidade e nos permitir voar com leveza e simplicidade.
Benjamim Pessoa Vale - Médico , empreendedor social e Doutor Honoris Causa - UFPI






