Semana Santa no sertão: fé e tradição


Semana Santa no sertão: fé e tradição

A chegada da chuva, já não miramos terra seca, poeira da estrada e garranchos; a caatinga enfolhada, a terra molhada a exalar o cheiro que tanto nos faz saudade, igarapés a correr e a sinfonia da natureza em curso.

No sertão profundo, a Semana Santa é fé, é tradição, é alegria, é oração e silêncio em mente e coração, que quem viveu esculpiu à alma.

Inicia-se na “semana caçadeira”. A preparação exige a participação de todos. Fraternidade ou apenas intuição para dividir tarefas? Seja como for, as semanas santas da minha infância foram inesquecíveis: uma semana sem trabalho, sem consumo de carne vermelha, sem banho às sextas-feiras, malhação de Judas aos sábados e festas aos domingos.

As festividades e religiosidades começam antes. Família unida, tarefas divididas, organizando o ambiente de tradição e fé: espaço para os santos enfeitados, fornos de barro limpos para o preparo de assados e bolos, escambos entre as famílias da comunidade. Azeites e manteigas da terra estão presentes; dos roçados já vêm melancias, abóboras e milho verde.

O trabalho na “caçadeira” organiza-se. Homens rumam a centros mais avançados, às compras: doces, sardinhas, peixes e bacalhau. Mas também são responsáveis por estocar lenha para a semana — e deve estar preparada e seca, vez que chuva banha o sertão: uma bênção.

O que dizer do trabalho das mulheres, já com as mãos a amassar gomas, preparar pubas, a ralar milho, a preparar os víveres, principalmente leitões e galinhas? O forno já aquecido, como estão as nossas almas, prontas para o preparo de bolos e assados.

Sábado, a despensa cheia. O cheiro invade a casa, certeza de fartura à mesa. Mas a criançada, impaciente e em travessuras, subtrai alguns pedaços e sai serelepe pelos terreiros a cantarolar, procurando um local seguro para degustar.

Chega o Domingo de Ramos. Às portas das casas e janelas, folhas de babaçu. Inicia-se a Semana Santa. Os mais velhos a explicar o sentido; as crianças a escutar. Pensam nas comidas e nos banhos nos igarapés, somem e retornam pelos chamados das mães: é hora do almoço.

A despensa abre-se à mesa: fartura. Leitões e capões assados, peixes, tortas de sardinhas e bacalhau, e a certeza de sobremesas de doces, canjicas, pudins e pamonhas.

Os dias grandes: quinta e sexta. Jejum para os adultos. Criançada a pisar miudinho e em silêncio. Já são convocados a momentos de oração em família, agradecendo as bênçãos dos céus.

Nas noites das sextas-feiras, a tradicional brincadeira de roubo de galinhas. Quem não participou perdeu aventuras e diversões. Iniciava-se após os quartos santos, onde aconteciam brincadeiras e paqueras: “Meu anel andou, andou, em que mão ficou…”.

Chega o sábado. O Judas já foi malhado e quem fez travessuras corre o risco de romper a aleluia, castigo pelo comportamento pouco respeitoso.


Domingo: Cristo vive, ressuscitado. É festa. Rompe-se o silêncio pelos foguetes e os sertanejos seguem com fé e tradição, que hoje já são momentos de saudade.


Benjamim Pessoa Vale, 15/03/2026

Médico, empreendedor social e Doutor Honoris Causa - UFPI





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